Uma pequena confusão na Austrália

Em 2011, fiz uma roadtrip com mais 3 amigas pela costa leste da Austrália, de Cairns (norte) a Sydney. No planejamento escolhemos as cidades e atrações que queríamos ver, mas não fechamos o roteiro dia a dia, para termos maior flexibilidade para estender a estadia ou fugir dos locais que não gostávamos. Íamos reservando as estadias com 1 ou 2 dias de antecedência de acordo com o fluxo da viagem. Dito isso, vamos à história:

Ao chegar em Cairns, o primeiro ponto, e pegar nosso carro, fomos direto a uma agência de turismo para agendar um passeio para Fraser Island, em Queensland. Fraser Island é a maior ilha de areia do mundo e, além disso, é bastante selvagem graças à presença de Dingos (o Dingo é um animal que fica ali na escala entre o lobo e o cão). Por isso, é preciso ter um 4×4 e algum preparo estrutural, uma vez que praticamente todos os carros atolam (pense em areia all over!) e toda comida e itens pessoais precisam ficar bem guardados, para que os Dingos não tomem posse definitiva.

Dito isso, resolvemos duas coisas: primeiro, fechar um passeio com um grupo de turistas para conhecer Fraser (sim, admito que tivemos medo de atolar o carro e, sem ajuda de ninguém para desatolar, sermos atacadas por um Dingo e morrer ali mesmo) e também não optamos por dormir por lá, pois o tempo estava apertado para tudo o que queríamos fazer no restante da viagem.

Discutimos bastante com o tiozinho fofo da agência de viagens, pois além das diferentes formas e pacotes que tínhamos para visitar a ilha, havia também as opções de como chegar lá: a partir da cidade X, onde iríamos de barco, ou a partir da cidade Y, onde iríamos de ônibus numa balsa – e isso precisaria ser coordenado com o nosso itinerário de viagem, já que uma ficava mais para o norte e a outra, para o sul – mais perto do destino final.

Não foi fácil. 4 meninas bem aceleradas e falantes, que tinham acabado de chegar na Austrália loucas para conhecer o país e estavam ali, presas na agência de turismo tendo que tomar decisões sobre algo que só aconteceria dali a alguns dias. Depois de muita discussão e ponderação, decidimos então conhecer Fraser dentro de um ônibus de turistas e sair da cidade Y. Resolvido, #partiu roadtrip.

Alguns dias se passaram, a Austrália foi sendo conhecida, e chegou finalmente o dia em que precisávamos reservar um lugar para dormir na noite anterior ao passeio a Fraser. Lembro muito bem desse dia. Estávamos em Airlie Beach e entramos numa lan house para fazer a reserva online. O seguinte diálogo aconteceu entre as 4 (aleatoriamente falando):

  • Gente, de que cidade vamos pegar o barco?
  • É da cidade que fica mais ao sul.
  • Não é a do norte?
  • Não, acho que é a do sul.
  • Qual é o nome mesmo?
  • Vamos ver no mapa… … …
[aponta pra cá, aponta pra lá, busca um pouco no Google]
  • Rainbow Beach.
  • Isso! Rainbow Beach!

Conseguimos vaga para nos hospedar em Rainbow Beach e, no dia seguinte, partimos em direção ao nosso destino. Chegamos em Rainbow Beach por volta das 24h, encontramos nosso host e entramos na casa. Não sabíamos, mas na realidade a gente tinha alugado uma casa super legal, 2 andares e tal, espaçosa e tal. Nos instalamos (aka colocamos cerveja na geladeira e jogamos as malas nos sofás) e fomos com ele e mais um amigo tomar uns drinks no bar do hostel em que ele trabalhava. Eis que o bar fechou dali a pouco e resolvemos voltar todos para a casa, afinal, tinha cerveja e tava aberta.

Papo vai, papo vem, o host nos perguntou de onde pegaríamos o barco. Falamos: do píer X. OS dois se olharam… se olharam… se olharam… e falaram: acho que não tem esse píer aqui, não. Claro que tem! Não, não tem. Tem, não tem, tem, não tem… Levantei e fui pegar o papel da reserva. Depois de ler as informações, não consegui segurar a gargalhada de nervosa. A Paula, que estava do meu lado, leu em seguida e teve a mesma reação. O restante da sala nos olhava meio sem saber o que fazer, porque estávamos rindo, o que estava acontecendo. Quando conseguimos respirar, entregamos o papel à Cami e à Gabi, que tiveram uma reação completamente diferente da nossa: entraram em choque e ficaram boquiabertas.

Os gringos continuavam sem entender.

O motivo: a gente estava na cidade errada. Eram 2h da manhã, estávamos todas bêbadas, tendo que dirigir 2h para chegar na cidade certa (pela qual já havíamos passado mais cedo, pois era mais ao norte), e precisávamos estar lá às 7h da manhã. Ou seja, tínhamos apenas 3h para dormir e ficar sóbrias se quiséssemos chegar a tempo no passeio. E queríamos. Despachamos os gringos (não consigo descrever o olhar de reprovação deles quando souberam que a gente estava na cidade errada) e fomos dormir, não sem antes terminar a cerveja que ainda estava na latinha.

Acordamos às 4h30, jogamos tudo no carro e fomos, tomando um toddynho e um pão ruim como café da manhã.

O resultado: Fizemos o passeio inteiro em estado de pré-morte. Como chegamos no ponto de encontro um pouco mais cedo do que o necessário, demos mais um cochilo no carro. Como o passeio era todo de ônibus, cochilamos durante quase todos os trajetos, e só acordávamos nos pontos em que era preciso descer do ônibus para passear pela ilha. Perdemos um monte de coisa. Não vimos Dingo nenhum. Todas saíram com a sensação de que precisariam voltar novamente para Fraser Island no futuro. Além de tudo isso, o dia estava nublado e, por isso, não vimos os pontos turísticos tão lindos quanto nas fotos que víamos nos guias – como foi o caso do famoso Lake McKenzie.

Mas, pelo menos, temos mais uma história legal para contar na mesa do bar – e, as fotos, que mesmo de poucos pontos, ainda assim mostram um pouquinho do que é a ilha!

Manu Pontual
Aquariana de corpo e alma, Manu é apaixonada por viagens. Fundou a Plot junto com o Rapha, e agora vive viajando - seja de verdade, fazendo roteiros para os nossos clientes, ou sonhando com os próximos destinos.

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