Porque valeu a pena subir uma montanha de madrugada na Jamaica

Fazer a trilha da Blue Mountain na Jamaica já estava nos planos da viagem, afinal esse é um dos principais destinos no País. Mas fazer esse trajeto durante a madrugada, para ver o nascer do sol lá de cima, realmente não é algo que tínhamos planejado ou sabíamos ser possível.

De onde surgiu a ideia de fazer a trilha da Blue Mountain de madrugada?

Tudo começou porque o guia de viagem que levávamos conosco não só recomendava a caminhada noturna, como apontava para a possibilidade de se avistar Cuba lá do alto, caso o céu estivesse aberto. E ai veio a negociação entre o grupo: uns queriam fazer isso de qualquer jeito; outros nem tanto. Foi complexo, repleto de pontos de vista e opiniões. Mas a decisão da maioria foi pelo sim, mesmo sabendo que isso significava abrir mão de uma diária já paga no hostel em que estávamos em Kingston.

No dia seguinte, então, depois de um turismo express pela capital jamaicana, entramos no carro e partimos, confiando em nosso GPS, que parecia exibir um labirinto, ao invés de um caminho, e nas orientações que eu havia recebido por telefone. Se me dissessem que a aventura era, na verdade, a estrada até o pé da montanha, eu certamente teria acreditado – principalmente porque, como um dos únicos que já havia dirigido na mão-inglesa (volante do lado direito), fui escolhido o motorista desse trajeto: noite, duas pistas estreitas, uma em cada sentido, curvas muito fechadas, carros locais em alta velocidade, um abismo do lado esquerdo e cinco amigos com discursos motivacionais.

Passada essa parte, chegamos ao posto policial onde deveríamos estacionar, embora não houvesse uma área própria para isso, e pedir ao oficial de plantão que avisasse ao guia de turismo sobre a nossa chegada, para que ele nos buscasse ali. Por mais estranho que esse pedido pudesse soar, foi recebido com a habitual simpatia jamaicana, normalmente potencializada ao contarmos nossa nacionalidade – obrigado, Renê Simões, por levar a Jamaica para sua primeira, e única até aqui, Copa do Mundo.

Nosso guia chegou dirigindo um pau de arara, onde embarcamos, deixando nosso carro parado, literalmente, no meio da estrada. Mais um caminho sinuoso, sob um céu estrelado de tirar o fôlego, e chegamos… ao meio do nada: duas casas construídas em uma área verde e pouco explorada, onde dormimos por algumas poucas horas, para iniciar a subida à 1h da manhã.

A experiência na trilha da Blue Mountain

Como não havíamos planejado que a trilha da Blue Mountain de madrugada, não tínhamos lanternas próprias e o guia também não tinha o suficiente para todos nós. Distribuímos as que estavam disponíveis entre o grupo (se não me falha a memória, eram três lanternas para sete pessoas, contando com o guia) e partimos. Fiquei com uma delas e responsável pela retaguarda.

Estava frio e estávamos com sono, mas tanto uma coisa quanto a outra durou pouco, pois a primeira parte do caminho é bastante íngreme e cansativa – para quem já fez, comparável à subida do segundo dia de trilha inca. Ai veio o cansaço, um certo desespero, teve gente passando mal e eu entendi que meu papel ali era maior do que delimitar o fim do grupo: eu precisava ajudar, de alguma forma, para conseguirmos chegar lá. E acho que cumpri bem o meu papel, enquanto cada um cumpria com o seu.

Cinco horas depois da saída, chegávamos ao cume, a tempo da alvorada, mas sem nenhuma chance de avistar Cuba, pois o céu infelizmente estava cheio de nuvens. Mas, mesmo assim, a experiência valeu. Porque o lugar é lindo, a vista incrível. Porque não tem nada melhor do que a sensação de missão cumprida e porque isso fortaleceu nossa relação como grupo.

Ficamos um pouco lá em cima, mas como estava frio e nossos corpos muito quentes, logo iniciamos a descida, que foi bem mais tranquila. E, acreditem se puderem, foi quando chegamos de volta à base que aconteceu a melhor parte da história: o pai do nosso guia, um senhor na casa dos 70 anos, legítimo Rastafári, chamado Jay-B, dono das duas casas e das plantações de café no entorno, nos convidou para experimentar uma de suas safras – e, aqui, vale uma curiosidade: além de famoso, o café jamaicano é uma importante fonte de renda para parte da população local do país.

Então, em uma mesinha ao ar livre, com xícaras e um bule entre nós, fomos presenteados com uma emocionante lição sobre a cultura Rastafári, cuja essência eu jamais poderia reproduzir em um texto, mas compartilho abaixo parte da gravação que fizemos desse momento.

E, no fim das contas, vale a pena fazer a trilha da Jamaica de madrugada?

Impossível descrever o tanto. Afinal, esperávamos encontrar Cuba no horizonte e encontramos muito, muito mais que isso.

Vídeo: Marcela 

Leia aqui outro ponto de vista sobre a trilha da Blue Mountain na Jamaica, de madrugada.

Rapha Rotta
Sócio-fundador da Plot, namorado da Manu, libriano indeciso e a cada dia mais asfaltofóbico. É apaixonado pelo mundo desde que consegue se lembrar e não consegue se sentir tranquilo sem saber quando será a próxima viagem.