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A experiência de fazer a trilha inca para Machu Picchu – Parte 1

Minhas motivações para fazer a trilha inca

Para muita gente, fazer a trilha inca é algo místico, uma verdadeira experiência transcendental. Para mim, não foi – e, confesso, não fazia parte das minhas expectativas que fosse. Sou uma pessoa cética, com certa dificuldade para assimilar essas questões mais intangíveis. Meu interesse, que levou à decisão de percorrer os 42km que separam Ollantaytambo de Machu Picchu, era mais prático: uma civilização anterior ao Cristóvão Colombo construiu algo desse porte e, não contente, escondeu da humanidade por séculos, com um acesso secreto por um trilha que percorre montanhas e florestas. Eu queria conhecer esse lugar. Eu queria muito percorrer esse caminho pra chegar até lá.

E conto, nessa história, dividida em dois capítulos, sobre a experiência de transformar tudo isso em realidade.

Dia 1 – O começo de tudo

No primeiro dia da trilha, todos os grupos que vão fazer a trilha inca se encontram em um mesmo ponto, em Ollantaytambo, onde são apresentados – entre si e aos guias – e recebem as primeiras orientações. Eu, que estava com três outras amigas, ainda tive a ótima companhia de outros cinco brasileiros (nove no total) e um argentino. Dez pessoas, ao todo, o que, pelas regras peruanas, exige a presença de dois guias: no nosso caso, o Gilbert (que falava português bem e gostava de ser chamado de Gilberto) e a Rose. Ambos, demais.

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O grupo de 9 brasileiros e 1 argentino reunido pra começar | Foto: arquivo pessoal
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Rê, Luci, Eu e Lailoca – mochilamos juntos por 35 dias e, no meio disso, encaramos a trilha | Foto: arquivo pessoal
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Esses são o Gilbert e a Rose, nossos guias, preparando nossa barraca para o almoço | Foto: Renata Lunardi

O primeiro dia é, dentro do possível, tranquilo: 9km, entre subidas e descidas, mas nada muito íngreme, e o grupo se desloca junto, em fila indiana, com um guia na frente e outro atrás. Uma caminhada de reconhecimento, pra sentirmos a trilha e nos prepararmos para os desafios dos dias seguintes. Um deles, percebemos, bem rápido: a chuva – era janeiro, um dos meses mais úmidos na região – que em menos de uma hora já começou a cair em nossas cabeças.

No fim do dia, chegamos ao acampamento, onde passaríamos a primeira noite, em que nossas barracas já nos aguardavam, assim como o jantar – cada grupo conta com uma equipe de carregadores, os porteadores, uns santos que levam nas costas as barracas e a cozinha móvel, além de serem responsáveis por montar tudo, desmontar e pilotar o fogareiro.

Dia 2 – Subir, subir… e subir mais

Imagina ser acordado antes do amanhecer, por um peruano perguntando se você quer, ou não, açúcar no seu chá de coca? O meu sem, por favor. E você pode desfrutar alguns últimos minutos no quentinho do seu saco de dormir, até que começa a gritaria, pra que você saia logo de dentro da barraca, por dois motivos: o primeiro, para começar a andar, porque é preciso cumprir os quilômetros do dia antes do anoitecer; e o segundo é que sua barraca precisa ser desmontada, carregada até o próximo ponto e remontada, antes de você chegar – sempre saíamos antes dos carregadores, mas sempre chegávamos depois: uma das regras da trilha é que, ao ouvir alguém gritando ‘porteador‘, deixe a direita (o lado do barranco) livre, pois você será ultrapassado por alguém que, eventualmente, estará carregando um bujão de gás.

O segundo dia é, sem dúvida, o que mais exige, fisicamente falando. São 11km no total e o grupo não precisa caminhar junto (vocês já vão entender o porquê). Cada um vai no seu ritmo e cada guia fica em uma ponta da fila. Existem pontos de encontro ao longo do caminho, onde é possível comprar água, isotônico etc. e a parada é obrigatória, para que o grupo se reúna, descanse um pouco e se disperse novamente. Eu não fiquei sozinho em momento algum, pois percorri os 42km da trilha inca no mesmo ritmo que a Rê – amiga dos tempos de Londres, uma das pessoas que estava mochilando comigo pela América do Sul.

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Bora subir | Foto: Renata Lunardi

A distribuição dos 11km parece que foi feita pra te enlouquecer. O primeiro quilômetro não sobe, nem desce, do acampamento até outro ponto de controle. E é a partir daí que a coisa fica séria: são 8km de subia ininterrupta, começando a pouco mais de 2 mil metros, até o ponto mais alto da trilha, acima de 4,5 mil. Haja folha de coca, pra minimizar a sensação de que o ar dos seus pulmões vai acabar e você vai parar de respirar a qualquer momento. Haja controle do corpo, pra manter a respiração ritmada, e da mente, pra não se desesperar com a situação. Haja sangue frio pra não se impressionar com as pessoas passando mal no meio do caminho – e, em alguns casos, usando o resto de energia que lhes resta pra gritar que não vão conseguir (parte delas passa, minutos depois, carregada por um porteador). Tudo isso debaixo de chuva, muita chuva.

Quando chegamos ao cume, não conseguíamos ver muita coisa ao redor, pois estávamos muito alto e havia muita névoa. Mas, mesmo assim, a sensação de que uma parte importante da missão estava cumprida me tomou completamente. Fiquei realmente muito empolgado. E aí você acredita se eu disser que parou de chover, o tempo abriu e conseguimos ver lááááá embaixo, onde começamos a subida? Quase explodi de tanta felicidade – por mim e por cada pessoa que ia chegando, quase morta, mas satisfeita. Incrível.

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Eu e a Rê, na chegada ao ponto mais alto da trilha | Foto: arquivo pessoal

Mas, sabe aquele ditado de que “tudo o que sobe, tem que descer?”. Descansamos um pouco e soubemos que o trecho final do dia era composto por 2km de descida, em degraus bem altos. Alguma dúvida de que, nessa hora, a chuva voltou pra nos acompanhar e deixar as pedras escorregadias? Só que, a essa altura, nada ia acabar com a sensação de êxtase que o feito anterior tinha proporcionado: descemos em um tiro e chegamos ao nosso segundo acampamento – sim, as barracas já estavam montadas nos esperando.

O jantar, nesse dia, teve um clima especial por conta de tudo o que tinha acontecido no dia, mas terminou com uma notícia bombástica: por conta da chuva (e aí vocês vão ver que eu não estava exagerando sobre a intensidade), o acampamento onde dormiríamos na terceira noite desabou, assim como a parte da trilha que dá acesso à Porta do Sol, entrada oficial da “cidade perdida dos incas”.

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O jantar do segundo dia (ainda sem saber sobre os contratempos que viriam | Foto: arquivo pessoal

Em termos práticos, isso significava que, no terceiro dia, teríamos que andar 22km, ao invés dos 16km inicialmente planejados, para acampar às margens do Rio Urubamba, que circula Machu Picchu. Pior que isso: não conseguiríamos entrar pela Porta do Sol, teríamos que usar o acesso normal, de turistas, acessado a partir de Águas Calientes – cidade vizinha.

Não posso negar que fiquei bastante frustrado, mas não havia alternativa diferente de respirar fundo e continuar. A escolha estava entre tirar o melhor de tudo isso ou me deixar abater e comprometer o restante do percurso. Fiquei com a primeira opção.

Clica aqui pra ler a segunda parte dessa história, em que mais imprevistos aconteceram antes da chegada a Machu Picchu! :)

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Rapha Rotta
Sócio-fundador da Plot, namorado da Manu, libriano indeciso e a cada dia mais asfaltofóbico. É apaixonado pelo mundo desde que consegue se lembrar e não consegue se sentir tranquilo sem saber quando será a próxima viagem.

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